Luísa Stern

Advogada, militante dos Direitos Humanos e pela cidadania de travestis e transexuais.

Crossdressers: homens de batom

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Fernanda Borges
Do Diário OnLine

Ficou
no passado o tempo em que vestido, salto alto e maquiagem eram
acessórios exclusivos do público feminino. Os crossdressers, homens que
vestem roupas do sexo oposto por satisfação pessoal, também não abrem
mão das bijuterias e das longas perucas. Os CDs, como os adeptos do
‘hobby’ são conhecidos, são heterossexuais que possuem o fetiche de se
transformar em mulher.

O termo crossdresser (vestir-se ao contrário, na tradução literal)
foi importado para o Brasil em 1997, mesmo ano de criação do BCC
(Brasilian Crossdresser Club), grupo cujo objetivo é reunir e dar
suporte — principalmente psicológico — aos praticantes. De acordo com a
presidente Kelly Neta
(pseudônimo, foto), 51 anos, os CDs são homens que desejam uma
identidade feminina, não significando que haja atração por pessoas do
mesmo sexo. “Fazemos isso por puro fetiche, não é nada relacionado à
opção sexual. No meu caso, sou hétero e muito bem casado. Porém, podem
existir CDs que são homossexuais, mas isso não é regra”, afirma.

O BCC possui atualmente 400 filiados, espalhados por 19 Estados
brasileiros. Segundo Kelly Neta, o crossdressing é muito mais praticado
do que se imagina, mas a maioria esconde o ‘hobby’ por conta do
preconceito. “Muitos confundem a prática do crossdressing com os
travestis. O que nos difere é a questão da comercialização do sexo e as
alterações no corpo. Os CDs não têm nenhuma conotação sexual e não
fazem modificações físicas permanentes, como silicones, uma vez que
mantemos a identidade masculina”, explica.

Apesar do cuidado que muitos CDs têm em preservar a identidade,
alguns se produzem com peças do guarda-roupa feminino e saem às ruas
sem intimidação. “Vamos a bares, restaurantes, shoppings e à praia, de
biquíni e tudo mais, sempre sem invadir o espaço dos outros”, explica
Kelly. Para ela, mesmo com a caracterização feminina, o intuito não é
se passar por mulher. “Nós temos a consciência de que não somos damas.
Por isso nos vestimos apenas por entretenimento”.

Os filiados ao BCC têm média de idade entre 45 e 50 anos e pertencem
a diversas camadas sociais. “Têm até muita gente importante que não
pode revelar a identidade por medo do preconceito e das conseqüências
no meio em que vive”, diz Kelly. É o caso do CD Nádia (pseudômino), 25
anos, morador de Mauá. “Todos acham que um homem que gosta de usar
roupas femininas é homossexual. Esse é o meu maior medo, pois as
pessoas não aceitam e confundem o fetiche com a opção sexual
simplesmente por não conhecer o assunto”, afirma.

No caso de Nádia, o interesse por saias e maquiagens surgiu na
infância. “Eu vestia roupas da minha mãe e da minha irmã. Fazia tudo
escondido. Cresci achando que era um bicho estranho, por isso tinha
medo de contar para alguém”.

De acordo com o BCC, Nádia é considerada um crossdresser de armário,
pois não tem coragem de sair em público como mulher. Outra dificuldade
para ela é assumir a opção para a namorada. “Hoje tenho um
relacionamento com uma garota há quatro meses. Ela ainda não sabe, pois
não sei se aceitaria. Vou conhecê-la bem primeiro, depois decido se
conto”, diz.

Louise (pseudônimo, foto à direita), 42 anos, de Porto Alegre (RS), também compartilha a opinião de que a aceitação
por parte do parceiro é um dos principais desafios de um crossdresser.
“No momento estou solteira. Só pretendo iniciar um novo relacionamento
com alguém que saiba e goste de mim como CD”, afirma.

Louise também tem receio de ser reconhecida como CD, mas arrisca
algumas saídas. “Aqui em Porto Alegre, mesmo nos locais GLBT (gays,
lésbicas, bissexuais, travestis), existem poucas crossdressers e o
pessoal ainda estranha nossa presença. Eu saio mais quando viajo para
cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, pois lá existe uma
diversidade maior de opções e não tenho receio de encontrar algum
conhecido”, explica.

Suporte emocional – De acordo com a relações
públicas do BCC, Patrícia Din (pseudônimo), 53 anos, o preconceito é a
barreira que impede que os CDs assumam a posição perante a sociedade.
Isso gera um conflito emocional e muitas vezes o praticante precisa de
ajuda. “No clube, temos uma equipe de profissionais, inclusive no ramo
psicológico, que vai ajudar o CD a se aceitar e a encarar a opção com
naturalidade”, explica. Segundo Patrícia, o apoio da família também é
fundamental. “A minha mãe sabe que sou crossdresser e aceita numa boa.
Ela até já fez um vestido para mim (risos)”, revela.

Mas a maioria dos CDs vive uma realidade bem diferente de Patrícia,
já que nem todas as famílias conseguem aceitar o fetiche como um
‘hobby’ comum. Porém, existem mulheres que aprendem a lidar com a opção
do parceiro. Elas são as chamadas S/Os (Supportive Opposite) — pessoas
do sexo oposto que apóiam e dão suporte emocional ao CD. Nesse sentido,
Kelly Neta é uma privilegiada. Sua esposa, Maria Luiza, 43 anos,
acompanha o marido em todos os momentos. “Ajudo a Kelly a comprar
roupas, maquiagens e tudo mais o que precisar. Encaro tudo numa boa, já
que o fetiche é bacana”, revela.
Apesar do clima descontraído de Maria Luiza, ela revela que no
início a aceitação não foi tão fácil assim. “Tudo começou como uma
palhaçada, até que chegou o momento em que ele falou sério comigo e
explicou que era um desejo incontrolável. Eu não sabia o que pensar e
demorou um tempo até eu digerir a idéia de que meu marido gostava de se
vestir de mulher”, conta.

http://www.dgabc.com.br/default.asp?pt=secao&pg=detalhe&c=10&id=646423

Clique aqui e veja a entrevista que os crossdressers concederam ao Diário OnLine
http://home.dgabc.com.br/canais/video/?/video/106/dia-a-dia/Crossdressers:+homens+de+batom

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Autor: Luísa Stern

Mulher transexual, Advogada, militante dos Direitos Humanos e pela cidadania de travestis e transexuais

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