Luísa Stern

Advogada, militante dos Direitos Humanos e pela cidadania de travestis e transexuais.

Sobre cicatrizes e lindas histórias tristes

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No amigo secreto do G8-Generalizando, grupo do SAJU da UFRGS do qual participo como Advogada voluntária, realizado no fim do ano passado, entre outras coisas lindas como a sua primeira obra de arte, ganhei um livro de presente da Nani, nossa colega que é estudante de Artes Visuais.

O título é “Pequena Abelha” e conta a história fictícia de uma refugiada nigeriana e de uma jornalista inglesa, e o modo como as vidas delas se cruzaram de maneira insólita, mas definitiva.  Pequena Abelha é o apelido da moça nigeriana, o texto a seguir  está logo no primeiro capítulo e é uma das muitas reflexões que ela faz ao longo da obra.

 

‘Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e estrelas no seu vestido ? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos que fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado ? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: “Eu sobrevivi”.
 
Daqui a pouquinho vou falar umas palavras tristes para você. Mas você deve escutá-las da mesma maneira como combinamos ver as cicatrizes. Palavras tristes são apenas uma outra forma de beleza. Uma história triste quer dizer: essa contadora de histórias está viva.’

Escrevo isso para falar um pouco da minha vida e da vida de todos nós. Das cicatrizes que temos em nossos corpos e, sobretudo, daquelas que carregamos em nossas almas, ou em nossos sentimentos e experiências de vida, para quem não acredita em questões espirituais, ainda que em sentido figurado ou simbólico.

Das cicatrizes que trago no corpo, todas elas foram causadas pela busca da minha identidade, escondidas abaixo dos seios, percorrendo toda a linha da cintura e aquelas mais recentes nas partes pudendas que ainda teimam em demorar para fechar um tanto além do tempo previsto. Todas elas mostram que superei uma série de barreiras e sobrevivi.

Das cicatrizes na alma que é sempre mais difícil de falar porque elas não são aparentes e muitas vezes nem aquilo que as causou. As maiores que carrego comigo são as que vem de esquivas, descaso, desconsideração, menosprezo, negação de oportunidades apenas porque tive a coragem de ser quem eu sou e defender as causas que defendo, de pessoas em situação semelhante ou pior do que a minha.

Nesses casos, os causadores das cicatrizes pouco ou nada sentem porque se julgam superiores,  se justificam estar agindo segundo normas (escritas e não-escritas) e invariavelmente usam do desonesto expediente de transferir a culpa para a vítima, dizendo que ela é que não se encaixa naquilo que eles julgaram e decidiram antecipadamente ser a sua verdade universal e absoluta.

Para esses e para outros eu digo que tenho muitas lindas histórias tristes para contar, simplesmente porque esta contadora de histórias tristes e lindas ainda está viva.

Luisa Helena Stern
Texto publicado originalmente em meu perfil no Facebook, compartilhado por e-mail e Twitter.
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Autor: Luísa Stern

Mulher transexual, Advogada, militante dos Direitos Humanos e pela cidadania de travestis e transexuais

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