Luísa Stern

Advogada, militante dos Direitos Humanos e pela cidadania de travestis e transexuais.


Deixe um comentário

Igualdade RS – Aos Olhos da Vida Somos Todos Iguais (2/2)

Video Institucional da Campanha “Aos Olhos da Vida Somos Todos Iguais”,
realizado em 2003, pela Igualdade RS – Associação de Travestis e
Transexuais do Rio Grande do Sul.

Anúncios


Deixe um comentário

Igualdade RS – “Aos Olhos da Vida Somos Todos Iguais” (1/2)

Video Institucional da Campanha “Aos Olhos da Vida Somos Todos Iguais”, realizado em 2003, pela Igualdade RS – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul

 

 


1 comentário

Homem de saia, salto alto, batom e lingerie

CROSSDRESSERS: Heterossexuais que sentem prazer ao se vestir de mulher

Desde a infância, Roberto preferia estar no grupo das meninas, e olhava mais para vitrines femininas. Quando jovem, usava roupas da mãe ou da irmã, em segredo.

“Você repara mais em coisas que só mulheres reparam”, afirma. Ele não é homossexual, mas sente prazer em se vestir como mulher. Roberto é um crossdresser (CD) e Vanessa está incorporada à sua personalidade.

O crossdressing é um tipo de travestismo considerado Distúrbio de Identidade de Gênero – quando a pessoa não se adequa ao seu gênero físico. Segundo a psicanalista Eliane Kogut, cujo tema da tese de doutorado foi o crossdressing masculino, ele é um distúrbio principalmente do ponto de vista cultural, pois vai contra costumes e tradições vigentes. Ela acredita que, futuramente, o crossdressing deve ser visto de outra forma, como a homossexualidade, que deixou de ser considerada um distúrbio em 1974.

Segundo Roberto/Vanessa, o que os CDs sentem é a necessidade de vivenciar o sexo feminino. “Queremos nos vestir e nos portar como uma mulher. É assim como uma necessidade que se tem de fumar ou beber”, conta. Eliane concorda e diz que não se trata de uma escolha. “Se eles não se vestirem, a angústia vai a níveis muito elevados. É como uma droga, porque existe uma espécie de fissura”. Essa angústia oscila entre a vontade incontrolável de se vestir de mulher e a negação
total do ato.

Os CDs normalmente começam a se travestir ainda na infância, antes da chegada da puberdade. Segundo a pesquisa de Eliane, a maioria começa entre quatro e seis anos de idade. Não há comprovação de que haja alguma relação com a carga genética, porém, acredita-se que o fator biológico e o cultural se complementam na formação de um crossdresser. “A influência cultural pode vir de uma mãe apagada, um pai mais agressivo, ou mais ausente, que seja alguém com quem o filho não queria se identificar”, explica a psicanalista.

Caricaturas de mulher

Eliane ressalta ainda que há grandes diferenças entre os travestis ‘normais’ e os CDs. Os travestis são homens com características femininas adquiridas por meio de hormônios ou plásticas, que agem e se vestem como uma mulher, e geralmente são homossexuais. “O CD é um travesti diferente, que tem a vida masculina estruturada também”, explica. A imagem que se tem dos travestis está muito associada à marginalidade. Os CDs são, na maioria, pessoas bem sucedidas, que trabalham e levam vidas relativamente normais.

Segundo Vanessa, eles não têm a pretensão de se tornarem mulheres perfeitas. “As mulheres já nascem prontas. Nós passamos por todo um aprendizado e chegamos a uma caricatura do que é uma mulher”. Muitos CDs, que são heterossexuais em sua maioria, brincam que gostam tanto de mulheres que resolveram tornar-se uma.

Se o CD é solteiro, pode formar seu guarda-roupa feminino com mais liberdade. Já quando é casado, contar para a esposa é um passo difícil. Muitas vezes, essa condição não é aceita pela mulher, o que pode inclusive acabar com relacionamentos. No entanto, muitas apóiam e, às vezes, até participam.

Vanessa foi casada por 20 anos, e sua esposa não aceitava a situação. Seus dois filhos não sabem que o pai é CD. “Eu viajava muito, aí levava as roupas e me satisfazia escondido”. Vanessa, no entanto, acredita que o principal não é a aceitação dos outros, mas a própria. “Várias vezes eu tentei negar isso. Mas até você descobrir quais são seus limites, é um caminho dolorido”, diz. Quando ainda não sabia o que era o crossdressing, achava que era homossexual. “Eu sabia que a sociedade não aceitaria, eu não queria ser gay! E, ao mesmo tempo, eu nunca me senti atraído por menino nenhum”, lembra.

Eliane diz que eles pensam que são aberrações até descobrirem que existem pessoas com o mesmo problema. A facilidade de encontrar informações na internet e organizações como o Brazilian Crossdresser Club (BCC) ajudam muito. O BCC realiza eventos para que os CDs possam conviver socialmente e aproveitem momentos de encontro para ficarem ‘montados’ (vestidos de mulher). Compartilhar as experiências com pessoas que passam por situações semelhantes é muito importante para eles, segundo Eliane.

 

Marido, pai e crossdresser

Atualmente, Vanessa diz que só se relacionaria com uma mulher que aceitasse e tivesse pleno conhecimento do crossdressing. “De que adianta amar uma pessoa, mas não compartilhar com ela minha totalidade? Não quero mais esconder, já chega o que escondo no trabalho e da família”, afirma. Como mora sozinha, Vanessa tem mais liberdade para guardar suas peças femininas. “Tenho um guarda roupa que qualquer mulher teria, e há muito tempo que só uso lingerie feminina”, revela.

Para os que têm a cumplicidade da esposa, fica mais fácil assumir o crossdressing. Reinaldo é casado, tem filhos e parte de sua família conhece seu outro lado. No escritório em que trabalha, onde também é o chefe, não esconde Kelly de seus funcionários. “Eu consegui transmitir para eles que o Reinaldo é o que é, um bom profissional, e é isso que importa”. Mas, quando está montado e encontra algum conhecido, a desculpa é sempre algo do tipo ‘perdi uma aposta, por isso estou assim’. O anonimato, segundo ele, é o ‘grande barato’ do crossdressing. Vanessa
concorda: “Seu vizinho ou alguém da sua família pode ser um CD, e você, talvez, nunca saiba disso”.

Carlos/Patrícia é hétero convicto e nunca teve dúvidas sobre sua sexualidade. “Mulher põe roupa de homem e ninguém liga. Mas se um homem põe uma sandália, uma saia, é gay. Não posso fazer isso e continuar a ser heterossexual?”, questiona. No entanto, ele admite que o crossdressing não é considerado “normal” na sociedade, e respeita a visão de quem não entende. Ele acredita que por ter desenvolvido mais seu lado feminino consegue também entender melhor as mulheres. “Vou comprar roupa no shopping junto com a namorada, a gente dá opinião um pro outro, é uma relação diferente”, explica. Rafaela, sua namorada, completa: “É como se fosse a sua melhor amiga, mas é seu namorado ao mesmo tempo”.

 

Crossdressing não é fetiche

Segundo a tese de Eliane, uma parte dos CDs é bissexual e outra é heterossexual. Ela não conheceu, durante toda a pesquisa, um crossdresser que fosse homossexual. Quanto ao erotismo, que é aquilo que provoca e mantém a excitação, eles não se enquadram em nenhuma dessas opções. Para um homem homossexual, por exemplo, o objeto de desejo é outro homem. Para o heterossexual, é o sexo oposto. Mas, para os CDs, apesar de terem relações com os dois gêneros, o erotismo não está voltado para a outra pessoa, e sim para a própria figura feminina que eles constroem.

Essa figura não é uma personagem, porque não se trata de uma atuação. “São eles próprios”, diz Eliane. E também não é apenas um fetiche porque, no caso dos fetichistas, a relação com o vestuário feminino não está associada ao transtorno de gênero. É apenas um desvio do objeto de desejo sexual para peças específicas, como calcinhas ou sapatos de salto alto. “Esses que têm apenas o fetiche de botar uma calcinha e aparecer no Orkut ou numa webcam não são CDs de verdade”, explica Vanessa.

A grande diferença, de acordo com Eliane, é que os CDs têm alguns componentes femininos na personalidade. Mas a mulher que eles acreditam ser é criada do ponto de vista masculino, a partir do que eles acham que a mulher é e pensa. “As mulheres não sentem prazer em balançar
os cabelos, com o ‘toc toc’ dos tamancos, ou em vestir uma meia calça, por exemplo. Mas, para eles, o prazer de ser mulher é vestir a roupa e balançar os cabelos”, exemplifica a psicanalista.

 

JULIANA VITULSKIS

 

Matéria do Jornal Comunicação, jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFPR – Universidade Federal do Paraná, Edição 08 – Novembro de 2008.

A edição inteira do jornal, em PDF, pode ser baixada nesse endereço:

http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/files/impresso/1108.pdf
.
.


1 comentário

Homens de vestido vão ao divã

A psicanalista Eliane Kogut fala sobre os crossdressers
Reportagem Juliana Vitulskis
Edição Flávia Silveira
Juliana Vituslkis

Segundo Eliane Kogut, não é uma decisão racional dos crossdressers se vestir ou não de mulher, mas uma necessidade muito grande

Os crossdressers (CDs) sofrem uma compulsão: se vestir de mulher, embora a maioria deles seja heterossexual e preserve sua masculinidade. Vários deles foram pacientes de Eliane Kogut, psicanalista, doutora em psicologia clínica.

Durante seis anos, Eliane acompanhou os integrantes do Brazilian Crossdresser Club (BCC) e defendeu, em 2006, uma tese de doutorado na PUC de São Paulo sobre esse grupo social: Crossdressing masculino, uma visão psicanalítica da sexualidade crossdresser. Antes, sua tese de mestrado deu origem ao livro Perversão em Cena, sobre perversão sexual, psicanálise e cinema. Na tese, ela distingue erotismo de sexualidade, o que permite ampliar a pesquisa sobre o assunto, além de desvendar um universo tão ambíguo. Em entrevista ao Comunicação, ela fala sobre o assunto, ainda pouco conhecido.

Comunicação: Porque o interesse pelo assunto? É relevante estudar esse comportamento em que sentido?

Eliane Kogut: Não tinha nada ainda a esse respeito, nem a partir desse ponto de vista quando eu fiz a minha tese. Eu tinha feito a minha tese de mestrado em sexualidade humana, sobre perversão e cinema. E nesse período eu tive um paciente que tinha algumas características de crossdressing, que foi quando eu comecei a pesquisar o assunto. Enquanto eu estava pesquisando, também foi publicada uma matéria sobre isso na revista Marie Claire, em 2000. A partir daí eu fui pesquisando mais e mais, e achei que era um tema muito interessante, pouco conhecido. Achei necessário pesquisar o assunto também porque eles passam por muito sofrimento. Às vezes eu converso com colegas meus, psicólogos, e muitos deles ainda não conhecem o crossdressing. Realmente é uma coisa pouco divulgada e pouco conhecida. E isso gera preconceito, o que provoca mais sofrimento ainda.

A matéria da revista Marie Claire pode ser encontrada aqui

 

Comunicação: O crossdressing é considerado um distúrbio?

Kogut: É um distúrbio no sentido cultural. No DSM-IX e no CID-10, que são catálogos das doenças psiquiátricas, o travestismo está lá. Agora, se a gente pensar também que em 1974, a homossexualidade ainda estava nesses catálogos, imaginamos que no futuro pode ser que o travestismo saia também. Eu pessoalmente não acho que eles são doentes.Cheguei à conclusão é de que o crossdressing é mais ou menos como uma droga, porque existe uma espécie de fissura. Eles têm que se vestir, é uma necessidade, se não a angústia vai a níveis muito elevados. Não é algo que eles escolhem.Claro, depois que eles fazem parte desses grupos, como o Brazilian Crossdresser Club, aí eles não se vestem apenas quando vem essa angústia. Existe o que eles chamam de urge e purge. A urge é a urgência de se vestir. Aquilo vem com força e, se eles não se vestem, a angústia vai a mil. E a purge é a negação, a reação do tipo: “eu não posso mais ser isso, isso não é bom para mim”. Então eles desistem de tudo, geralmente dão tudo que eles têm – eu conheço pessoas que já deram dois guarda-roupas inteiros – mas aí tornam a fazer, porque isso volta depois com muita força. Não se trata de uma decisão racional, não é desejo – é uma necessidade muito grande de se vestir de mulher.

Comunicação: Existe uma idade, em média, para o surgimento do crossdressing? Pode se desenvolver ao longo da vida? E existem possíveis explicações para o surgimento desse comportamento?

Kogut: A maioria dos homens que eu conheci e pesquisei começou entre 4 e 6 anos de idade. Em termos genéticos, a gente não tem nenhuma comprovação de que exista algum fator dominante. Imagina-se que pode ser que existam o fator genético e o cultural, que são complementares – se houver uma predisposição genética e o meio cultural contribuir, pode resultar no crossdressing. Temos hipóteses, mas não existe nenhuma pesquisa que defina que isso é genético, ou só cultural.

Comunicação: E o que compõe essa influência cultural?

Kogut: Pode ser composta de uma mãe ‘meio apagada’, um pai mais agressivo (não no sentido de agressão física), ou mais afastado do filho, mais ausente, que seja alguém com quem o filho não se identifique muito. Mas, no final, ele tem as duas identificações: a identificação com o pai e a identificação com a mãe.

Comunicação: O crossdresser pode deixar de ter a necessidade de se vestir de mulher?

Kogut: Eu nunca vi um crossdresser que parou completamente de querer se vestir de mulher. No meu consultório, trabalho buscando o que eles querem. Se para a pessoa o crossdressing é um incômodo muito grande, vou desenvolver um trabalho voltado para ampliar mais a vida masculina dela. Mas, mesmo assim, a gente tem que elaborar esse lado feminino que existe, ele tem que ser integrado na personalidade. Se o indivíduo tem vontade de viver bem as duas coisas, e integrar mais esse lado feminino na vida dele, damos esse enfoque ao tratamento. Eu tive um paciente que a única coisa que ele gostava era de ter relações sexuais com a esposa vestido de mulher. Era só isso que ele precisava, não fazia questão de sair vestido de mulher. Alguns que só gostam de vestir roupa íntima feminina. Então existem várias as graduações do crossdressing. Têm aqueles que se vestem todo final de semana e freqüentam festas, e tem os que vão fazendo transformações no corpo, que podem até chegar a se tornar transexuais – que é fazer a cirurgia de redesignação sexual, para se tornar mulher mesmo.

Comunicação: O crossdressing pode então ser considerado um travestismo em menor grau?

Kogut: O crossdresser é um travesti, mas é diferente do travesti de rua. Eles têm a vida masculina deles, o travesti não. Muitos travestis vivem de prostituição, se envolvem com drogas. Isso porque eles têm muita dificuldade em serem aceitos na sociedade. Existe muito cabeleireiro, costureiro, maquiador que é homossexual. Mas você não vê travestis nessas funções, por exemplo. Eles são pouco aceitos, não têm lugar na sociedade. Agora, esse travesti sobre o qual estamos falando, o crossdresser, ele tem a vida normal, como homem, e quando quer, se veste de mulher. Eles também não têm nada de afeminados.

Comunicação: E quanto à sexualidade, o que diferencia o comportamento dos crossdressers?

Kogut: O que foi muito importante na minha tese foi que eu distingui comportamento de erotismo. Comportamento é aquilo que você faz. Erotismo é aquilo que provoca e mantém a excitação. Então, no comportamento, uma parte deles é bissexual (mantém relações sexuais com ambos os sexos) e outra parte é heterosexual (mantém relações com o sexo oposto). Eu não conheci nenhum crossdresser homossexual (relações com o mesmo sexo). E no erotismo eles não são nem hetero, nem homo, nem bissexuais, porque, apesar de eles terem relações com os dois gêneros, masculino e feminino, o erotismo deles não está voltado para a outra pessoa. Por exemplo, para o homossexual, o objeto de desejo é outro homem. Ou seja, um homem forte, musculoso, com barba cerrada. Se for uma mulher, é outra mulher e uma mulher também feminina, não tem essa coisa de ficar procurando só mulheres masculinizadas. Para o heterossexual, o objeto de desejo é o sexo oposto. Mas, para os CDs, o objeto de desejo é a própria figura feminina que eles constroem.

Comunicação: Essa figura feminina é uma personagem?

Kogut: Não é uma personagem, porque não é uma atuação. É um lado deles mesmos, que é assim feminino. Então, quando eles estão com uma mulher, não sempre, mas muitas vezes, o desejo é de ser aquela mulher. A fantasia e o erotismo para o CD é ele se imaginar sendo aquela mulher com quem ele está mantendo relação sexual. Quando ele está com um homem, aquele homem significa que ali existe uma mulher, o que corrobora com a figura feminina dele. É complicado, é ambíguo, não é fácil de compreender.

Comunicação: Eles se sentem como mulheres? De que forma essa presença feminina compõe a personalidade deles?

Kogut: Muitos deles se sentem homens com alma feminina. Muitos me falam assim: “As mulheres deveriam gostar muito de nós, porque somos capazes de compreendê-las muito melhor, nós conhecemos a alma feminina”. Mas o que eu percebi durante a minha tese também é que, embora eles tenham alguns componentes femininos na personalidade, o que eles chamam de alma feminina é uma impressão criada do ponto de vista masculino. É o que eles acham que a mulher é. As mulheres não sentem prazer em balançar os cabelos, com o ‘toc toc’ dos tamancos, ou em vestir uma meia. Mas, na visão deles, a mulher é isso, ela sente prazer em se vestir como mulher. Até porque o prazer deles é esse: vestir uma meia calça, salto alto e balançar os cabelos.

Comunicação: O crossdressing é um fetiche?

Kogut: Não é só fetiche, porque o fetiche é quando a pessoa só tem prazer sexual com uma parte da sexualidade: com a presença de um objeto, ou com uma parte do corpo. E, no caso dos crossdressers, a fixação é no corpo inteiro. O grande prazer é com a figura feminina que eles conseguem montar. Embora eles gostem muito de salto alto, não é só isso que gera prazer. O que traz a excitação é ele se sentir uma mulher, sobre o salto alto. Às vezes eles se vestem apenas com calça jeans e camiseta, mas o importante é eles sentirem que fizeram uma boa montagem de mulher. É diferente também da drag queen, que faz uma figura mais debochada, exagerada e é, normalmente, homossexual.

Comunicação: E como fica a questão dos limites entre o feminino e o masculino? De que forma isso é trabalhado na psicanálise?

Kogut: Trabalho com eles da mesma forma que com qualquer outro paciente. É uma questão existencial, o paciente escolhe até onde ele quer chegar, a gente tenta chegar até esse ponto. É preciso pensar nos custos que ele vai ter pela frente, e se está disposto a pagar o preço – é igual a qualquer outro paciente. Os primeiros que vieram para eu atender ficavam muito preocupados em me contar sobre o crossdressing deles. Eu sempre pedia que eles se colocassem como um todo, porque é assim que a pessoa deve se perceber.

Comunicação: E como é para eles manter a vida dupla, que ocorre na maioria dos casos?

Kogut: Algumas das esposas aceitam, alguns não contam para as mulheres, e geralmente, dos que contam para as mulheres, a família de origem não sabe. Muitos não podem abrir mais esse lado porque teriam que pagar um preço muito alto. Enfrentariam muitas críticas, muita pressão. O grande medo que eles têm é de perder muito com isso. E é aí que entra o trabalho desenvolvemos juntos: se ele quer viver essa vida, se isso é super importante e ele tem essa fissura, então é preciso fazer ele integrar isso da melhor maneira na personalidade, pagando só os preços que ele acha que pode pagar.

Comunicação: Existe um limite entre o crossdressing e o transexualismo?

Kogut: Não tem uma linha divisória. Muitos transexuais passam pela fase do travestismo até descobrirem que eles querem fazer a operação para mudar o sexo e que querem viver como mulher pra sempre. Outros fazem algumas modificações, mas param por aí. Tomam hormônio, mas precisam depois usar faixas para disfarçar os seios. Tomam sol de biquíni, e então não podem mais ir à praia ou piscina com amigos, ou têm de ficar de bermuda e camiseta diante deles. Alguns fazem depilação. Enfim, para quem mora na praia principalmente é um problema. São vários conflitos com relação a esse limite, que são realmente causadores de sofrimento.

Comunicação: Existe uma média de idade em que eles passam a se aceitar como crossdressers e a lidar melhor com todas essas questões?

Kogut: Principalmente os que não se reprimem e que tem convívio social, de alguma forma estão integrando isso na vida deles, seja com mais, ou menos sofrimento. Se a mulher sabe, fica um pouco mais fácil. Mas com a internet, eu acredito que as coisas mudaram um pouco. Quando eu comecei a fazer essa pesquisa, a internet não era tão acessível como é hoje e eles se achavam aberrações. Com a internet e a maior facilidade de achar e trocar informações, eles podem dividir isso com outras pessoas, o que é um alívio muito grande. Mas não existe uma idade certa, o que existe é um processo que depende de quando eles descobrem o que é e começam a se aceitar.

Comunicação: Qual é a importância de um clube como o BCC para os crossdressers?

Kogut: Eles poderem encontrar seus pares, ter seus iguais, não se sentirem tão sozinhos. O grupo dá mais força a eles. E esse grupo já fez mais de dez anos, mas só agora começou a aparecer na mídia. É um movimento muito lento, porque o medo da exposição era muito grande. Mas hoje alguns já se expõem um pouco mais.


Deixe um comentário

Entrevista com Maitê Schneider

Seguem os links para uma série de vídeos com a transexual Maitê Schneider, em entrevista ao programa Caxola.
.
Bloco 1

http://br.youtube.com/watch?v=vMukZixV8UU
.
Bloco 2

http://br.youtube.com/watch?v=rKs6hv4_lCM&feature=related
.
Bloco 3

http://br.youtube.com/watch?v=KC09uAT6rFU&feature=related
.
Bloco 4

http://br.youtube.com/watch?v=–vZFuqetzE&feature=related
.
São
cerca de 40 minutos de entrevista em que ela passa quase toda a vida a
limpo, contando detalhes do seu processo transexualizador, suas
angústias, conquistas, cirurgias mal feitas, até chegar na mais
recente, que pretende ser a definitiva.